Apesar do número recorde, empresas lideradas por mulheres ainda enfrentam desafios estruturais
- CMEC NACIONAL
- há 6 dias
- 4 min de leitura

As empresas lideradas por mulheres seguem em expansão no Brasil e ultrapassaram a marca de 10,4 milhões em 2024, o equivalente a 34% dos empreendedores do país, segundo levantamento do Sebrae.
O avanço representa um crescimento acumulado de cerca de 42% desde 2012, quando havia aproximadamente 7,5 milhões de mulheres empreendedoras. Esse movimento, no entanto, apesar de dever ser comemorado, ocorre em um ambiente ainda marcado por desafios estruturais, como dificuldade de acesso ao crédito, juros mais altos e sobrecarga da dupla jornada.
Ana Claudia Badra Cotait, presidente do Conselho Nacional da Mulher Empreendedora e da Cultura (CMEC) da CACB, destaca que as mulheres enfrentam desafios culturais e sociais específicos ao empreender, associados à dupla jornada, estereótipos de gênero, falta de apoio, além de a maioria das mulheres que empreendem serem arrimo de família.
Esses desafios não ficam apenas no âmbito familiar: Cotait destaca que esses desafios aumentam quando as mulheres vão para o mercado financeiro, enfrentando acesso limitado ao crédito e juros mais altos que os ofertados para empreendedores do gênero masculino, além de receberem menos que eles como remuneração pelo mesmo trabalho realizado ou atividade equivalente.
Segundo dados da ONU Mulheres, apenas 30% dos cargos gerenciais no mundo são ocupados por liderança feminina e apenas 27% dos assentos parlamentares globais são femininos.
Principais desafios das empresas lideradas por mulheres
Mesmo com o avanço da presença feminina nos negócios, persistem diferenças de renda. No final de 2024, mulheres empreendedoras ganhavam, em média, 24,4% menos que os homens. E essa diferença de renda pode ser ainda maior entre mulheres negras e homens brancos, segundo o Sebrae, podendo chegar a 74%.
Dados atualizados do “Relatório Elas Empreendem”, do Governo Federal, indicam que, em 68% das atividades econômicas, mulheres têm rendimento menor. No Brasil, de forma geral, mulheres ganham em média 30% menos que homens empresários, aponta a Pnad Contínua.
Dados do Instituto DataSenado sobre violência doméstica e econômica também indicam que cerca de 30% das mulheres no Brasil não têm autonomia total sobre o próprio dinheiro.
A violência patrimonial ou financeira também aparece como fator relevante. Uma em cada quatro brasileiras já teve o dinheiro controlado por parceiro em algum momento da vida.
Por outro lado, mais de 51% das mulheres são responsáveis pelo sustento do lar, de acordo com dados do IBGE e da PNAD.
acesso ao crédito também aparece como um desafio relevante. Apenas 25% dos recursos destinados a pequenos negócios são direcionados a mulheres.
Instituições financeiras frequentemente exigem garantias ou oferecem condições consideradas menos favoráveis, o que pode dificultar a expansão dos negócios liderados por mulheres.
Já no campo educacional aparecem fatores como falta de formação em negócios, pouco acesso a redes de mentoria e dificuldades na qualificação profissional.
Perfil do empreendedorismo feminino no Brasil
Entre os setores de atuação, os serviços concentram a maior parte dos negócios liderados por mulheres, com 56,8%. O comércio aparece em seguida, com 25,1%.
Outro dado relevante é a escolaridade. A proporção de donas de negócios com ensino superior aumentou de 20,9% em 2014 para 34,5% em 2024.
No último trimestre de 2024, menos de 30% das mulheres empreendedoras não tinham ensino médio completo, enquanto a maior parte se dividia entre ensino médio completo, com 37,9%, e ensino superior incompleto ou mais, com 34,5%.
Apesar da maior escolaridade média em relação aos homens, muitas mulheres enfrentam dificuldades para permanecer no mercado formal de trabalho e acabam optando pelo empreendedorismo por necessidade.
Entre os fatores citados estão a falta de flexibilidade no emprego e preconceito no ambiente corporativo, o que leva muitas mães a abrir o próprio negócio como alternativa de renda.
A faixa etária mais comum entre as empreendedoras brasileiras está entre 30 e 39 anos. Em 2024, também houve aumento na participação de mulheres com 60 anos ou mais, que passaram a representar 12,5% das empreendedoras no quarto trimestre do ano.
Maioria das empreendedoras informais são negras
A pesquisa do Sebrae também aponta diversidade no perfil das empreendedoras. Entre as empreendedoras, cerca de 52,3% são chefes de família e aproximadamente 4,7 milhões de empreendedoras são negras, considerando mulheres pretas e pardas. Entre as empreendedoras informais, 54% são negras.
O crescimento do empreendedorismo feminino também gera efeitos econômicos e sociais. Entre os impactos econômicos estão a geração de renda e o estímulo à economia local.
No campo social, o empreendedorismo feminino contribui para a redução das desigualdades de gênero e o fortalecimento das comunidades.
Já no plano individual, o empreendedorismo pode estimular o desenvolvimento de habilidades, o fortalecimento da autoestima e o aprimoramento da inteligência emocional.
Empresas lideradas por mulheres quase dobram na última década
Nos últimos anos, a presença das mulheres como empregadoras ou trabalhadoras por conta própria aumentou de forma consistente. Dados do IBGE indicam que, em 12 anos, a participação feminina nessas posições cresceu 42%.
Em 2012, havia cerca de 7,5 milhões de empreendedoras no país. Esse número chegou a 9,8 milhões no fim de 2019, pouco antes da pandemia. Naquele período, as mulheres já eram responsáveis por cerca de 30% dos negócios no Brasil.
Mesmo diante da crise provocada pela pandemia, essa participação se manteve estável. A digitalização acelerada e a necessidade de geração de renda levaram muitas mulheres a abrir o próprio negócio, seja como alternativa à perda de emprego ou como forma de buscar maior autonomia financeira.
Após o fim da pandemia, o empreendedorismo feminino voltou a crescer. O número de empreendedoras superou 10 milhões em 2022 e atingiu 10,35 milhões em 2024, consolidando a participação feminina em 34% do total de empreendedores do país.
Tecnologia se destaca nos negócios liderados por mulheres
Entre as ferramentas utilizadas nos negócios liderados por mulheres estão automação de processos administrativos, uso de chatbots com inteligência artificial para atendimento ao cliente, análise de dados para tomada de decisão e plataformas integradas para gestão de vendas.
Esses recursos podem aumentar a produtividade, reduzir custos operacionais e melhorar a gestão dos negócios.
Conteúdos digitais e presença em redes sociais também seguem como ferramentas relevantes para atrair e fidelizar clientes.
Fatores que impulsionam o empreendedorismo feminino
O fortalecimento de redes femininas de apoio é apontado como fator de máxima relevância para o avanço do empreendedorismo feminino.
Entre as iniciativas citadas por Ana Claudia Badra Cotait estão coletivos de empreendedoras, grupos de networking, comunidades online e espaços de coworking voltados para mulheres.
Além disso, ela cita que linhas de crédito específicas para empreendedoras, com taxas diferenciadas e menor burocracia, tendem incentivariam o avanço desses negócios, além de contribuir para a economia movimentada por pequenas e médias empresas.
.png)



Comentários